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Bernardo Carvalho

Biographie

Bernardo Carvalho (1960) est un écrivain brésilien qui a publié près de huit romans en trente ans et compte aujourd’hui parmi les plus grandes figures de la littérature sud-américaine.

C'est avec le recueil de nouvelles Aberration (1993) qu'il se fait remarquer sur la scène littéraire brésilienne. Ses récits, qui se déroulent aussi bien au fond du Brésil qu'en Mongolie, au Japon ou en Russie, reflètent son goût du voyage et sa grande inventivité.

Son premier roman Onze a été publié en 1995. Dans Neuf nuits (2002), l'anthropologue nord-américain Buell Quain se suicide au cours d'un de ses séjours en Amazonie. Il avait 27 ans, venait de recevoir une lettre qu'il a brûlée et en a laissé quelques autres. Les circonstances exactes du suicide n'ont jamais été élucidées. Obsédé par cette information, l'auteur commence une enquête. Dans un style lumineux, ce roman exceptionnel est construit en une série de glissements constants entre fiction, invention, souvenirs et réalité. Ses personnages, prisonniers des circonstances, entretiennent des liens précaires et névrotiques avec une réalité imprévisible.

En 2003, Bernardo Carvalho a reçu le prestigieux prix Jabuti du meilleur roman au Brésil pour son roman Mongolia. Son dernier roman Ta mère a été publié en 2009.

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Texte d'Auteur

VLAMÍNDIA

Não tenho palavras para lamentar o momento em que, por mera curiosidade, depois de ter me sentado diante da escrivaninha, pronto para começar a escrever o texto que deveria coroar a minha experiência neste lugar, abri a gaveta e encontrei o manuscrito do hóspede precedente.

É comum escritores não se suportarem. Não é disso que estou falando. Estou falando de uma obsessão. Viemos do mesmo lugar, nascemos no mesmo ano, estudamos na mesma escola. Ele me persegue. Basta ele publicar um novo título para eu voltar a sonhar com a sua morte. Só a coincidência sinistra que me faz descobrir, a cada novo livro que ele publica, tratar-se do mesmo com o qual eu vinha me debatendo, em vão, na tentativa de também escrever um romance, pode dar uma ideia do infortúnio de sucedê-lo nesta residência que já recebeu tantos outros escritores de tantas outras nacionalidades. Que outra explicação, além da sina maldita que nos une desde sempre, pode dar conta da infelicidade de ter sido ele e mais ninguém entre as centenas de milhares de escritores pelo mundo quem me precedeu neste retiro onde achei que pudesse enfim esquecê-lo e escrever meu romance em paz?

Como só a partir de mim passaram a exigir que os escritores se ativessem ao aspecto imaginário da ficção (evitando usar o gênero como fachada para contar a verdade sobre suas experiências neste lugar incrível), suponho que o manuscrito dele que encontrei na gaveta tenha algo a ver com isso. Chama-se "Vlamíndia" e começa assim:

"Pelo regulamento, tinham todo o direito de pedir que ele se retirasse da parte da casa cujo uso era vedado aos escritores e onde ele se encontrava ilegalmente refestelado, ouvindo a música dos donos da casa, quando eles chegaram com seus convidados.

Não se fez de rogado: decidiu dar uma volta para espairecer e esquecer a contrariedade. A região era muito bonita e bem cuidada, graças às propriedades que se sucediam, com cercas impecáveis, câmeras de segurança nas entradas e placas que alertavam: ‘Propriedade privada, mantenha-se afastado'.

O caminho estava pontuado por avisos na língua da Vlamíndia. Graças ao dicionário bilíngue (e não-autorizado, publicado por imigrantes ilegais) que ele havia comprado no mercado negro, conseguiu traduzir a maioria deles: "Cuidado: Vacas", "Não pise no pasto", "Bela vista de colina", "Cavalos típicos da região", "Milharal", "Castelo" etc.

Os vlamíndios não queriam correr o risco de contaminação, nem mesmo através da equivalência e da correspondência de sua língua com outras línguas. Estavam muito bem equipados para evitar a presença de estranhos, o que garantia um aspecto uniforme, muito limpo e tranquilo à paisagem. Os castelos que pontuavam os vales verdejantes podiam ser avistados ao longe, das estradas vicinais, mas seu acesso estava vedado a pessoas não-autorizadas, por questões de segurança, mas também de estética e de higiene. E foi por pura desinformação, tentando chegar a um desses castelos, que ele acabou vivendo sua derradeira experiência.

Demorou a entender que o castelo era completamente inacessível, como se esperassem um ataque de hordas medievais a qualquer instante. A Vlamíndia tem uma longa história de guerras, de modo que já estão mais do que escaldados. Na primeira tentativa, ele tomou a estrada que margeava um bosque nos fundos do castelo, atravessando antes um pequeno povoado de casas uniformes, com bandeiras da Vlamíndia pregadas às cercas, às portas e às janelas sempre fechadas. Não havia ninguém na rua. As vacas, os carneiros, os cavalos e os cães eram os únicos seres vivos ao ar livre. Ao vê-lo passar, os cães se arremessavam contra as cercas das casas onde estavam presos, latindo desesperadamente. Três crianças que o observavam da soleira da única porta aberta receberam-no com pedras quando ele sorriu para elas. O caminho que seguia para o castelo por dentro do bosque terminava num portão vigiado por câmeras penduradas em árvores centenárias. Numa delas, uma placa avisava o que, pela recorrência, ele já não precisava do dicionário não-autorizado para traduzir: "Cuidado! Acesso expressamente proibido a estranhos".

Tomou, então, a estrada que margeava a frente do castelo, onde ficava o portão principal, também vigiado por câmeras e protegido por uma cerca elétrica. Antes, porém, passou por uma fileira de casas um pouco mais exuberantes que as do povoado dos fundos do castelo, o que não queria dizer grande coisa. Eram monocromáticas. E ostentavam todas a bandeira roxa e preta da Vlamíndia.

Em seguida vinha uma longa cerca-viva, encimando um talude que impedia a visão do castelo. O escritor seguia tranquilo pela estrada vicinal quando ouviu o estrépito de motores cada vez mais próximos, quebrando o silêncio tão festejado da Vlamíndia. Surgindo em alta velocidade por uma curva fechada, dois triciclos conduzidos por homens com capacetes pretos e roxos, as cores nacionais, por pouco não o atropelaram. Na sua ingenuidade estrangeira, o escritor acreditou que estivessem de passagem, até entender que voltavam e estavam atrás dele. Teve de subir o talude, correndo, de quatro, e se jogar por cima da cerca-viva, para salvar a pele, mas não por muito tempo."

O manuscrito prossegue, de modo mais ou menos previsível, narrando como, do outro lado da cerca, o escritor se viu perseguido por uma matilha de cães e acabou capturado pelos empregados do castelo, que o esquartejaram e o enterraram aos pedaços no jardim, antes mesmo de ele poder desfrutar da vista extraordinária e da construção reputada pela imponência e considerada, em mais de um guia turístico da Vlamíndia que ele conseguira traduzir com o auxílio do dicionário ilegal, um dos atrativos da região.

Não é preciso dizer que minha experiência foi outra. Não sei onde ele foi buscar inspiração para inventar essa história insólita e inverossímil. Passei uma temporada maravilhosa, escrevendo e caminhando por paisagens de tirar o fôlego. Em vez de cães bravios, encontrei seres adoráveis, sempre dispostos a ajudar um estranho perdido. Nunca me diverti tanto. Pelo menos até abrir a maldita gaveta. Só tenho mais uma coisa a dizer: acho improvável, mas se é que o puseram mesmo para fora dos aposentos onde ouvia música, refestelado, é porque sabiam com quem estavam lidando. No lugar dos donos da casa, eu teria feito a mesma coisa.

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